Moving time  4 timer 8 minutter

Tid  5 timer 7 minutter

Koordinater 2657

Uploadet 11. september 2018

Optaget september 2018

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249 m
5 m
0
3,8
7,5
15,01 km

Vist 479 gange, downloadet 12 gange

tæt på Mafra, Lisboa (Portugal)

Há muito que era meu desejo fazer uma caminhada pelos trilhos do Lizandro até à sua foz.
Hoje, a convite de amigos, surgiu a oportunidade. Bom,... não foi bem uma caminhada, foi antes um "passeio" numa tarde pachorrenta de fim de verão.
Levámos os carros para o parque de estacionamento na zona norte da praia de S. Julião e chamámos dois táxis que, quase uma hora depois, nos levaram a Mafra.
Quase quatro da tarde seriam quando iniciámos este belo passeio partindo do largo fronteiriço ao extraordinário monumento, custeado por El Rei D. João V que, esperançado que tal empreendimento lhe trouxesse, por graça de Deus, a tão desejada descendência real (lícita) por fertilidade da sua consorte, D. Ana Maria de Áustria, abriu os cordões à bem recheada bolsa que o ouro do Brasil fazia transbordar. Os pormenores ficcionais desta tão significativa obra, que começam com a visita do rei à alcova da rainha, conta-no-los Saramago na sua obra prima. Outros pormenores sapienciais foram-nos transmitidos pelo nosso guia, impressionado por um carrilhão de seis oitavas, que teria sido o maior do mundo à época, e não muito além disso se aventurou transmitir a uma plateia recheada de grandes e fartos conhecedores de tais pormenores. Fiquei eu a perder que continuei na, pouco abonatória diga-se, ignorância das caraterísticas deste grandioso monumento.
Vamos lá que se faz tarde e muito atrasados, à custa do táxis e não só, já nós estamos.
A Praça da República defronte ao monumento ficou para trás bem rapidamente, a rua Serpa Pinto, antiga Calçada das Reais Obras, também e de caminhada ter-se-ia apanhado o ritmo não fora as cobiçosas amoras que enfeitavam as silvas logo à entrada do "Trilho do Senhor Heitor" terem atraído a atenção de um número significativo dos caminhantes. É que nem o palácio dos Marqueses de Ponte de Lima, onde pernoitaria El Rei, quando de visita às Reais Obras, nem a Igreja de Santo André, que, por acaso, é não só o templo mais antigo da freguesia como terá também sido sede paroquial de que Pedro Hispano (Papa João XXI), o único Papa português, foi pároco e que, também por acaso, apresenta um portal gótico interessantíssimo supostamente do século XIII ou XIV, talvez por serem demasiado conhecidos, tanta atenção atraíram. De facto, havendo amoras que coisas mais interessam?...
O Senhor Heitor, cuja quinta que se estende pelo vale e apresenta ainda um velho e condenado portal com o nome em azulejo pintado à mão, emprestou, sem que lho pedissem, seu nome a um bonito trilho que desce vale abaixo por entre silvados e reboredos até bem perto da capela de Nossa Senhora do Arquiteto. Esta singela capela, reza a lenda, foi construída por um arquiteto, amante da pescaria, que, vendo-se em apuros no meio das altas vagas (imagine-se, o mar da Ericeira com vagas grandes?...) com extrema fé, à Senhora do Socorro recorreu, prometendo que seu santo nome haveria de venerar enquanto vivesse e mandaria construir duas capelas, uma no mais alto ponto da freguesia, que a todos lembrasse que o "Socorro" só da muita fé se obtém, e outro no ponto mais baixo da mesma, em sítio que nem chaminé se visse, para que, resguardado do mundo, pudesse venerar a Senhora que o socorreu, na paz e silêncio que só a natureza, deserta de gentes, propícia.
Ainda só eram andados pouco mais de três quilómetros e porque a muitas amoras peniscadas não aconchegaram suficientemente a barriga dos passeantes, houve que proceder a uma paragem técnica para saciar a fome e libertar o que, estando dentro, só peza e bem não faz. Vinte minutos passados e eis-nos num bonito caminho que, por encostado à ribeira, nos trás o cantar da água e ouvir-se-ia também o chilreio dos pássaros não fora o cacarejar ruidoso de outras aves pernaltas. Continuemos...alto lá que toda a gente parou e, por vir atrás não estava a compreender a razão de tanta gargalhada. Chegado, confrontei-me com a travessia da ribeira que tinha que ser feita sobre as pedras semeadas no leito. Claro, as gargalhadas tinham por razão o escorreganço de alguém menos habilidoso, ou mais afoito e menos previdente, que fora com as botas, e não só, à água. Mais duas travessias e peripécias a quadruplicar: desde travessias às cavalitas, chapinhanços que nem crianças da pré, pés descalços e calças molhadas, de tudo um pouco houve.
Entramos finalmente no vale do Lizandro e, numa bem cuidada horta, teve pouca sorte a hortelã que foi cravada por dois ou três que menos vergonha tinham. Assim, desde uma mochilada de belos tomates, onde nem os coração-de-boi faltaram, até uma melancia, passando pelos belos alhos-pôrro e a abóbora-manteiga, de quase todos os produtos da horta a senhora ofertou um pouco, isto é: um muito. Se alguém ler isto, encontrar a generosa senhora hortelã e tiver a mesma ideia, peço que seja um pouco menos desavergonhado porque senão a senhora vai à falência, é que a horta é o seu ganha-pão!...
À frente, junto da Capela da Nossa Senhora do Ó, aliviámos as mochilas comendo a bucha que tinha sobrado da paragem na anterior capela. Mais meia hora de paragem e lá fomos passeando pela Rua da Fonte até à ETAR e depois por um trilho na encosta que mostrava algumas das características cársicas deste vale onde o Lizandro se deita, numa quase tão lenta marcha quanto a nossa, deslizando suavemente até à foz.
Chegados à N247, atravessámos a ponte sobre o rio e continuámos à direita pela Rua das Amoreiras até apanharmos o belo trilho da arriba sobre a Foz do Lizandro. A beleza deste trilho, onde era suposto chegarmos ao Sol pôr, ficou com um encanto noturno indiscritível que seria diferente, quiçá menos belo ou de beleza diferente, não fora a tentação das amoras, os chapinhanços na ribeira e a solicitude de uma hortelã que tudo quis oferecer.
Passeio inolvidável que recomendo para ser feito com um grupo de gente animada, bem disposta e muito…muito… muito paciente.
Como fui incumbido de cerra-filas falhou-me a explicação do guia
O fruto é parecido com o da Figueira do Inferno (datura Stramonium) mas as folhas são muito diferentes e a flor não a vi porque já só tinham fruto.

1 kommentarer

  • Foto af Delfim Nobre

    Delfim Nobre 11-09-2018

    Como habitual, uma descrição de excelência, amigo Joaquim! Um abraço

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